Trajeto percorrido: 2.375 km
Saímos de Arica um pouco tarde rumo a Iquique. Havíamos abastecido no Peru para acabar nossos com soles, como só tínhamos rodado 50 km , pensamos em completar somente na próxima cidade.
Deixamos o nível do mar e começamos a escalar as dunas do deserto em uma linda e seca estrada sinuosa. Após subir e descer algumas dunas, brincando como crianças na areia, entramos em uma zona plana e reta. No começo tudo era fascinação, a grandeza e aridez do deserto nos encantavam. Tivemos que fazer um desvio de 15 km em uma estrada de terra, o que majorou a sensação de que estávamos em uma grande aventura. Passados alguns quilômetros o encanto virou tédio, a estrada se delongava em imensas retas em meio ao nada. A paisagem era a mesma, não havia tensão na pilotagem, só caminhávamos por aquela rodovia quente e infecunda. Pouco tempo depois o tédio se transformou em medo. A moto do Louwel tinha somente 60 km de autonomia e não havia o menor sinal de cidade, posto ou civilização. As demais motos também não estavam com muito combustível. Parar ali, em meio àquela imensidão quente seria muito perigoso. Nem sombra havia! Passaram-se longos 30 km sem que tivéssemos sinal de vida. Quando a autonomia já beirava os 30 km , visualizamos algumas “construções” na beira da estrada. A idéia seria pelo menos conseguir um lugar para aguardar enquanto outros buscassem combustível. Porém, para nossa surpresa, em uma loja de precariedade extrema, havia gasolina para vender. Segundo informações, em 30 minutos encontraríamos um posto, assim, colocamos (de galão e garrafa pet cortada) 5 litros de gasolina em cada moto e seguimos caminho cozinhando no forte sol do deserto.
Rodamos por mais 45 km e estávamos novamente na reserva quando chegamos em um vilarejo chamado Huara. Como não havia posto de gasolina aparente, perguntamos para um senhor onde poderíamos comprar combustível. Primeiro ele nos guiou a um local que estava fechado. Após, nos levou até um singelo armazém, onde se vendiam alimentos e suprimentos para animais. Fomos atendidos por uma simpática senhora de 84 anos, “nascida na Rússia”, chamada Maria, que nos forneceu gasolina. Como o local era demasiadamente rústico, ficamos para tirar algumas fotos. Brincamos e conversamos um pouco com a senhora que, em determinado momento, para nossa surpresa, começou a se sentir à vontade conosco e nos narrou, com incrível riqueza de detalhes, a história daquele vilarejo. Aquela sábia mulher nos deu uma verdadeira aula de história regional, contando toda a saga da mineração, que trouxe muita miséria e sofrimento para aquele local. Por fim, a presenteamos com uma camiseta da nossa viagem e fomos embora deixando um pouco de felicidade à árdua vida daquela nobre senhora.
Fica a dica para os motociclistas: não brinquem com questão de gasolina no deserto! Tomem muito cuidado, ficar parado em um local como aquele põe em risco a vida de qualquer um. Sejam prevenidos e comedidos em questão de distâncias.
Após alguns quilômetros mais, após uma gigantesca curva ao redor de uma duna, em meio ao nada, encostada ao Pacífico, surgiu Iquique, uma gigantesca cidade completamente isolada. Foi realmente estranho encontrar um local daquele porte após tantas horas de solidão completa. Uma sensação de alívio e alegria agora tomava conta de nós.
Nos instalarmos no Hotel Gavina (muito bom e com preço justo) e fomos ao conhecido mercado Zofri, uma zona franca chilena, melhor local para fazer compras no país. Em que pese seja mais barato que o Brasil (qualquer lugar é mais barato que o Brasil!), não tem nada demais. As lojas são confusas e amontoadas, se assemelhando a um camelódromo. Particularmente não gostei. Além disso, por volta das 20:00h o mercado, que fica ao lado de um porto, foi tomado por um cheiro insuportável de peixe que acabou nos forçando a sair dali como se houvesse um incêndio. O cheiro era bravo mesmo!
Nota interessante foi que conhecemos neste local os motociclistas James, James Filho e Geraldo que deixaram Telêmaco Borba (Paraná) rumo ao Alasca em duas Teneres 250 e uma XT 660, respectivamente. O interessante de viajar é isso, quando pensávamos que éramos aventureiros, aparecem alguns loucos e nos mostram o quanto somos “caretas”.
Impressões finais do Peru:
Um vez deixado o primeiro país roteiro de nossa aventura, cumpre expressar nossa opinião sobre ele.
O Peru é um país muito lindo. Seu pequeno espaço geográfico compreende uma gigantesca variedade de paisagens maravilhosas. É incrível pensar como em tão poucos quilômetros passamos por tantos locais diversos.
Entretanto, toda esta riqueza natural contrasta com a incrível pobreza e falta de condições sanitárias. Além disso a infra-estrutura é muito precária.
Sua população, incrivelmente simples e religiosa, mantém viva uma cultura primitiva e arcaica muito encantadora. A simpatia daquela gente contrasta com a vida sofrida e pobre que levam, em um lugar que parece que foi esquecido pelo tempo.
A altitude, que era um de nossos maiores temores, não foi um problema. Tivemos um pouco de dor de cabeça e as motos perderam potência, mas nada demais. A única coisa que realmente é um problema é o esforço físico, cansa muito mesmo! Deve-se economizar energia!
No tocante ao motociclismo, encontramos estradas muito bem pavimentadas, repletas de curvas deliciosas em meio a paisagens estarrecedoras. Incrível foi notar como, apesar de nosso sangue speed, respeitamos os limites de velocidade: lá estava a placa de 50 km/h e nós passávamos a 150 km/h , outra de 65 km/h e nós a 165 km/h . O 1 na frete ou não é um detalhe...
Finalizamos essa primeira parte da viagem encantados com os locais que passamos e momentos que vivemos. Que venham os novos desafios e que sejam emocionantes como esse!
| No começo era pura empolgação |
| Laerte todo animado |
| Desvio apimentando a viagem |
| Nosso primeiro "posto de gasolina" no Chile |
| Instalações modernas |
| Serviço de primeira! |
| D. Maria e seu moderno equipamento |
| Neto só na gestão! - Waguinho, quero ter aulas!!! |
| BMW 1200 GS abastecida no garrafão de vinho?!!! |
| D. Maria feliz com o presente |
| Nossa marca naquele local para sempre |
| Motociclistas rumo ao Alasca, humilhando nosso passeiozinho.. |
| D. Maria em seu armazém-posto que nos emocionou e rendeu boas risadas!! |
Demoraram para dar notícias, estava angustiada..
ResponderExcluirQue ótimo, tudo dando certo... Uma aventura e tanto e, como sempre, muito bem descrita...
Que graça D. Maria... pessoa certa, na hora certa...
E os paranaenses. É, cada louco com a sua mania.. hehehe ... É isso aí, temos que superar os limites e encarar desafios, sempre!!
Beijos, saudades... Schirley e Ana Luísa
Muito boa as fotos. Uma delícia seguir o blog. Abraço a todos.
ResponderExcluirE ai pessoal. Aqui é o James Pai e o James Filho de Telemaco Borba. Só pra dizer que terminamos nossa viagem ao Alaska e que foi muito bom te-los encontrado pelo caminho. Nosso contato continua o mesmo.
ResponderExcluirForte abraço.